Trilhos

O tempo voltou a passar ligeiro. O blog continua aqui a observar o dia a dia. Muitas leituras foram feitas. Viagens toda semana.
tempo

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“Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro
Que dói mais” (Belchior – Como nossos pais)

Heavy rain in Spain

Ah, VISÕES:

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Entrevista com a banda Torture Squad

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“TORTURE SQUAD – Far Beyond Existence (2017)
Far Beyond Existence – Oitavo álbum de músicas inéditas dos paulistanos do metal Torture Squad foi lançado em todo mundo pela gravadora britânica Secret Service Records.
Com o mesmo time de produção do EP Return of Evil (2016), Wagner Meirinho e Tiago Assolini, a banda entrou nos estúdios Loud Factory e Orra Meu, em São Paulo, entre os meses de abril e junho de 2017, para gravar o novo álbum Far Beyond Existence, que contém nove músicas, além de faixas bônus.
Banda e produtores optaram pela sonoridade mais pesada e limpa possível. Essa escolha, somada à exigência dos produtores, à qualidade dos estúdios e instrumentos e à precisa execução dos músicos na gravação, pode ser sentida, de forma clara, na agressividade, no peso e na musicalidade do álbum.
Far Beyond Existence conta com muitas  participações especiais, como as de Dave Ingram (Haill of Bullets, ex-Benediction, Bolt Thrower), em Hate; Edu Lane (Nervochaos), na narração em Cursed by Disease; Luiz Louzada (Vulcano, Chemichal Desaster), em You Must Proclaim; Alex Camargo (Krisiun), na versão de Just Got Paid, dos texanos do ZZ Top; Marcello Schevano (Carro Bomba, Golpe de Estado, Casa das Máquinas), tocando Hammond na inédita Torture in Progress, e Fernanda Lira (Nervosa), na versão de Divine Step, da banda suíça Coroner.
Nas letras, a banda manteve a tradição de abordar diferentes tópicos, como as questões da vida que estão além da compreensão humana (Far Beyond Existence), passando por inspiradoras mensagens de atitude (Steady Hands), palavras ¨amorosas¨ para os políticos brasileiros (Don´t Cross my Path), até filosofias de vida do Bruce Lee (Hero for the Ages).
A capa, desenvolvida exclusivamente para o disco, foi feita por Rafael Tavares e contém detalhes significativos que remetem ao tema do trabalho. A imagem do crânio representa os humanos; a serpente, os animais; o céu e as rochas, o universo; e o olho do réptil e do crânio simbolizam portais para mundos que estão muito além do nosso conhecimento. “More questions than answers”. Como diz uma parte a faixa título.
A banda segue agora na extensa ‘A Far Beyond Existence Brasil Tour’, turnê por todo o Brasil que tem o suporte das bandas parceiras Hatefulmurder, Reckoning Hour e Warcursed e passa pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Tocantins, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Os shows se encerram no dia 17 de setembro após aproximadamente 25 datas. Todas estão no Facebook oficial do grupo, confira: https://www.facebook.com/torturesquad”

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Rodrigo Brito: Ano passado, nós de Mato Grosso tivemos a oportunidade de prestigiar ao show da turnê Return of Evil e agora novamente seremos presenteados com a Far Beyond Existence tour. É uma alegria para todos nós vermos o Metal como um movimento vivo em diferentes cidades ou regiões do Brasil. A respeito disso, gostaria de conhecer as opiniões da banda sobre o show realizado em 2016 em Rondonópolis.

AMÍLCAR CRISTÓFARO: Com certeza me lembro do show em Rondonopolis. Foi a primeira vez que passamos em Mato Grosso, foi um show em um sábado e é sempre especial shows num sábado. Sempre que passamos pela primeira vez em um lugar, os fãs da banda vêm sempre com muita energia. É sempre muito prazeroso passarmos pela primeira vez nos lugares, por essa troca de energia com os fãs que nunca viram a banda ao vivo é inesquecível, em Rondonópolis não foi diferente. Por isso eu considero a Returno of Evil um divisor de águas para a banda. Dessa vez passaremos em Cuiabá, que, se não me engano, também nunca passamos, e a expectativa é grande também.

Rodrigo Brito: Mayara, em várias entrevistas, a banda é questionada sobre as justificativas da escolha de uma mulher no vocal e você é indagada sobre as dificuldades de participar de uma banda. Amílcar Christófaro não é questionado sobre ser homem e seguir a carreira artística, porém você é sempre lembrada sobre assuntos que envolvem dificuldades profissionais, como se fosse um crime uma mulher ocupar uma posição que desafia o que é pré-concebida da figura feminina. Gostaria que você comentasse sobre o protagonismo feminino no Metal.

MAY PUERTAS: Não acho que a representatividade feminina no metal seja tratada como algo criminoso, mas sim curioso. Por mais que as mulheres estejam presentes na música pesada desde os primórdios, rola uma curiosidade natural por grande parte do público ser formada por homens, e consequentemente a grande maioria de pessoas envolvidas na mídia Heavy Metal também. Existe uma falta de tato ao abordar uma mulher, sobre suas dificuldades ou desafios… porque homens e mulheres são diferentes, certo? Isso seria mais fácil se nessas horas as revistas e sites recorressem as mulheres envolvidas no meio. Eu poderia citar várias envolvidas com jornalismo, produção, divulgação, etc.  Muitas vezes não há tanto interesse de ir mais a fundo nesse mundo das diferenças no dia a dia mesmo, então na hora de entrevistar uma mulher as perguntas acabam caindo na mesmisse.
Me deparei recentemente com uma matéria “especial” sobre mulheres no heavy metal em uma revista muito conhecida, e qual a minha surpresa que as páginas dessa edição eram todas cor de rosa com desenhos de flores. Veja bem, estamos falando se mulheres do METAL PESADO, em páginas cor de rosa com flores???? (risos). Mas eu vejo como positivo essa abertura maior que estes grandes meios de comunicação estão dando as mulheres, e é este o caminho pra que a mulher deixe de ser um tabu e passe a ser um elemento comum no meio, temos muito a dizer e contribuir com o Heavy Metal.

Rodrigo Brito: Percebo que as dez poesias são direcionadas às angústias do sujeito na contemporaneidade e que o novo trabalho nos brinda com questões sobre a existência. Em alguns momentos, por exemplo, temos um eu-lírico amoroso (“Feel the breeze/ Breathe the air/ Look around/ Peace of mind”) e em outra canção, uma voz poética desencantada com o cotidiano (“No chance for redemption/ There is no space for failure/ You don’t get a second chance”). Poderia comentar sobre as imagens poéticas do novo álbum?

AMÍLCAR CRISTÓFARO: O que gostaríamos de passar com o conteúdo lírico do disco está no próprio título, “For Beyond Existence”, Muito Além da Existência. Quisermos dizer que o ser humano deveria se colocar no lugar dele perante o planeta sendo menos egocêntrico. Vemos extremistas religiosos matando inocentes por não acreditarem nas mesmas crenças, desrespeitando outras vidas, o valor do próximo. O disco foi feito com essa característica, de passar para o ser humano o quanto ele tem que olhar ao redor e ver que ele é uma parte de um todo e não O todo, ao contrário do que muitos pensam sendo mais importantes do que são. Essa letra que você citou primeiro é minha, da faixa título, e a outra letra é da Mayara, de uma referência do filme Exterminador do Futuro, mas todas buscam a mesma referência, em querer mostrar ao ser humano que ele é uma parte.

Rodrigo Brito: Parabéns, Torture Squad por lançar Far Beyond Existence. Vocês são sempre bem-vindos em Mato Grosso. Para encerrar, os versos abaixo trazem uma mensagem muito bonita presente no novo trabalho da banda:

“[…] maybe you’ll become a
myth, but there’s a price do pay
Be free, confront yourself
Courage to break all the bricks”

AMÍLCAR CRISTÓFARO: Fico muito feliz de prestarem atenção nas letras, e essa letra é de autoria minha e exatamente essa parte, “talvez você se torne um mito, mas há um preço há se pagar, seja livre, confronte você mesmo, coragem para quebrar todos os tijolos do muro”, esses tijolos eu fiz uma referência ao muro do Roger Waters, desse muro grande que a vida da pra gente nas bifurcações. As vezes a pessoa vive a vida inteira querendo ir para um lado mas falta alguma coragem para assumir alguns riscos e pagar o preço pela escolha, mas se é isso que você deseja, deve ir com a cara e com a coragem. Fico feliz que tenham pegado essa mensagem que a gente quis passar. Agradeço muito a entrevista, foi um prazer ter feito parte disso!

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Rondonópolis e a comoção seletiva

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No dia 26 de junho, acordamos com uma notícia muito triste: Tabata Brandão havia sido assassinada. Não há, até o momento, nenhum indício que leve ao responsável por esse crime. A Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa investiga o caso, porém, conforme a mídia regional, a análise será difícil por ter ocorrido em uma área afastada da cidade.

Pouco se comenta a respeito e a população finge que nada aconteceu. Quadro muito diferente do que tivemos no ano passado, quando a sociedade se comoveu pelo assassinato de um padre. Houve uma grande mobilização das pessoas e dos órgãos públicos para punir os criminosos e concluir a investigação que, diga-se de passagem, foi sendo abafada quando descobriram que o padre que buscou os adolescentes.

É provável que a comparação com a morte do sacerdote seja considerada como desigual, pois esse era uma personalidade pública e religiosa da cidade. Entretanto, como ambos foram assassinados, acredito que haja semelhanças nas questões que envolvam a proteção social, mas nos noticiários os casos não foram trabalhados da mesma maneira. A desigualdade e o descaso da informação se dão nas manchetes, nas fotos, nos adjetivos, entre outros fatores que, como sabemos muito bem, servem apenas para reforçar estereótipos e marginalizar ainda mais a vítima.

Tabata foi vítima de transfobia e “talvez” por isso haja o silenciamento da população. Novamente, temos exemplo de que a comoção é seletiva, uma vez que a brutalidade do assassinato e a crueldade do silêncio nos mostram o tanto que a violência só incomoda quando atinge pessoas que são valorizadas pela mídia.

Além dessa comparação que comprova uma aparente incoerência, temos diversos outros casos: uma sociedade que aplaudiu a morte de jovens acusados ano passado por assalto a banco, mas que anos antes “absolveu” um membro da classe alta que, dirigindo na avenida Lions sob efeito de gás butano, colidiu com oito carros, deixando uma mulher ferida – crime adjetivado pelo jornalismo local como “cinematográfico” para suavizar a situação.

Na verdade, não acredito que a comoção seletiva seja característica exclusiva de Rondonópolis. Pelo que vemos nas redes sociais e nos jornais de todo o país, as incitações às “revoltas” são selecionadas com o máximo rigor aos interesses. A mídia enquanto reprodutora de discursos da burguesia, faz uso de linguagens depreciativas para mobilizar a população a ter opiniões ultrapassadas. Em relação às informações, assusta a forma como o crime foi noticiado: a ênfase dada à sexualidade e à profissão e a divulgação da foto de seu corpo abandonado na rua. Essa exposição indevida reforça o desprezo do jornalismo com a dignidade do sujeito e com os temas que envolvem o combate à LGBTfobia.

Influenciada por discursos que excluem as minorias em direitos e políticas públicas, o silêncio parece ser a única opção para alguns quando crimes ocorrem com negros, gays, lésbicas, travestis, transgêneros, indígenas e quilombolas. Porém essa escolha é discriminatória, pois é a recusa de se escandalizar com um assassinato a depender de quem fora a vítima.

Tal discriminação é de fácil constatação, pois apesar da inquestionável brutalidade do crime em si, de outro lado evidenciou-se a intolerância em vários níveis e locais: não bastou a exclusão e a violência física, a mídia tratou o assunto com desprezo e a população atendeu com o descaso. Conclusão: Tabata foi assassinada duas vezes, física e socialmente.

Ainda que a omissão seja nítida, por sorte, ainda há quem esteja disposto a trazer os desassossegos de viver num país onde o Estado de exceção é a regra. Ora, não podemos nos silenciar diante da barbárie, pois muitas vidas já foram tiradas, e muitas ainda o serão, em decorrência da segregação social. Não podemos aceitar viver em uma cidade em que a justiça caminha de mãos dadas apenas com a heteronormatividade. Ao se ignorar a morte de Tabata, concorda-se com a impunidade, por isso, fechar os olhos para o assassinato é uma forma de naturalizar o crime.

Não é esse o tipo de justiça ou a comoção seletiva que eu quero para mim. Identifico-me com o narrador de “Mineirinho”, conto de Clarice Lispector (1920-1977), pois o desprezo com que o caso foi tratado pela população de Rondonópolis, me desassossega, me envergonha e me assassina. Nós que estamos em casa, iludidos que a tranca nos protegerá, muitas vezes nos esquecemos de que estamos tranquilos enquanto outros não estão. Assim como na narrativa de Clarice, “meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva”.

Rock’n’roll: terceira edição de Cerrado Fuzz Festival

Atenção, Cuiabá, Rondonópolis, Jaciara, Guiratinga, Cáceres, Primavera do Leste e todas as outras cidades de Mato Grosso:

19/08 – III Cerrado Fuzz Festival, em Rondonópolis

Cerrado

Os fãs de Rock’n’roll, Fernando Rodrigues e Ricardo Amorim, dedicam-se a organizar o festival com bandas de diferentes cidades desde 2015 em Rondonópolis. Considerando que a cidade é vista muitas vezes apenas na perspectiva do agronegócio, o evento oferece, talvez, um novo olhar sobre a região e ainda contribui para fortalecer a cultura e incentivar a divulgação do trabalho artístico.

Para esta edição, as bandas que fazem parte das atrações são: Necro (AL), Overfuzz (GO), Hottel Casablanca (MT), Electric Void (MT) e Remorse (MT).

Necro

Necro é formado por Lillian Lessa (baixo, guitarra e voz), Pedro Salvador (guitarra, baixo e voz) e Thiago Alef (bateria). O trio de Maceió é influenciado por Hard Rock dos 70’s, rock psicodélico e progressivo. No ano passado a banda lançou Adiante, álbum que me parece excelente para ouvir quando se dirige na BR-364.

Pela segunda vez, o Cerrado Fuzz irá nos brindar com o Rock produzido em Goiás. No evento anterior tivemos a inesquecível The Galo Power, neste ano é a vez de Overfuzz fazer parte do festival. Formado por Brunno Veiga (guitarra e vocal), Bruno Andrade (baixo) e Victor Ribeiro (bateria), a banda está há quase duas décadas se dedicando a tocar um som que eles adjetivam como “sujo e contagiante”. Em 2015, lançaram Bastard Sons of Rock ‘n’ Roll, álbum que garantiu a 15ª colocação na lista de melhores lançamentos nacionais, segundo o site Tenho Mais Discos Que Amigos.

Overfuzz

Hottel CasablancaHottel Casablanca foi formada no ano passado, em Cuiabá, por Nicole Ribeiro (voz e piano), Yuri Missawa (guitarra), Thiago Araújo (baixo) e Marcus Tubarão (bateria). A banda divulgou as músicas Not Today e Like a Monster in a Black Hole no Youtube e vem conquistando o público com um som que explora música eletrônica, rock alternativo e clássico. Tenho interesse em conhecer mais sobre a banda, por isso tenho a curiosidade em assisti-los, com certeza a apresentação deles é imperdível!

Electric Void e Remorse são de Rondonópolis e possuem a proposta de tocar covers e composições próprias. Electric é a pioneira a se dedicar ao stoner rock na cidade, o power trio composto por Caio César (baixo e vocal), Leonardo Pimentel (guitarra) e Vinícius Rangel (bateria). Com a potência do Heavy Metal, Remorse, formada por Luiz Henrique (guitarra e voz), Márcio Hister (guitarra), Élvio Couto (baixo) e Alecsandro Fachini (bateria), a banda lançou, no ano passado, o clipe Pacha Mama.

O Cerrado acontece em Rondonópolis e a edição atual será na chácara Mocó. Os ingressos já estão à venda no Microcenter, Bruno Barbearia e Casa Rock Bar. Todos estão convidados para esta grande festa que celebra o Rock n’ Roll. Meus leitores, em especial, aguardo vocês lá!

Convites

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Atenção, Cuiabá, Rondonópolis, Jaciara, Guiratinga, Cáceres e todas as outras cidades de Mato Grosso:

19/08 – III Cerrado Fuzz Festival

09/09 – V Vendetta Metal Fest

 

Todos estão convidados. Galera de Mato Grosso do Sul, Goiás, DF: aguardamos vocês.

 

“no fundo cor-de-rosa do chocolate eu te respiro”

Lendo poemas de Roberto Piva. Como esse poeta é maravilhoso! O Brasil desabando, mas ainda temos a poesia. Ufa! Estou com o livro Mala na mão & asas pretas, da coleção obras reunidas volume 02. Muitos pensamentos…

Hora de trabalhar o projeto de doutorado. Ser um pesquisador das obras de Piva, é isso que eu quero para mim.

 

abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.
(PIVA, p. 111)

Visitar cemitérios… Por que não?

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O ano de 2013 foi de experimentos na escrita para mim. Escrevia com muita frequência artigos para um jornal de Rondonópolis e, na época, produzi um texto sobre o cemitério da Vila Aurora. A ideia foi refletir sobre a arte e cultura no local e estabelecer algumas questões a respeito do tema que nos causa tanto desassossego. A partir da vivência de ir ao cemitério para escrever um artigo, tornei-me curioso por saber mais sobre as necrópoles no Brasil.

Foi quando, em 2015, o site Carta Capital publicou a reportagem “Ao pó voltarás”, apresentando o trabalho de visitas ao cemitério como opção de roteiro cultural e, ainda descobri uma pessoa que, assim como eu, acredita que o silêncio dos cemitérios tem muito a dizer. Comecei então a acompanhar via Facebook, os trabalhos de Clarissa Grassi em realizar visitas ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula, em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente e a Fundação Cultural de Curitiba, Paraná.

Ainda não tive a alegria de participar desse roteiro cultural, porém, admiro os trabalhos de Clarissa tanto em promover a interação dos sujeitos com os cemitérios como em suas atividades intelectuais de refletir as artes tumulares. Muita vida pulsa nos túmulos, nas flores e nas esculturas; a necrópole é o espaço dos afetos. Quando leio os textos dela ou vejo as imagens das visitas, tenho certeza que a afetividade está presente e é determinante nas homenagens.

Meus comentários, então, são de leitor, de alguém que mora no Mato Grosso e deseja muito participar das visitações. Ao refletir que existem vida e sinceridade nos passeios, o meu papel de entusiasta, admirador e curioso me movimentam para pesquisar e escrever sobre o trabalho dela.

O objetivo das visitas, segundo as informações na obra Guia de Visitação ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula (2014), é resgatar as trajetórias e memórias de personalidades enterradas, possibilitando aos visitantes informações sobre as biografias, arquiteturas, geologias e simbologias nos túmulos. Destaco que os trabalhos da pesquisadora resultam em um olhar multidisciplinar, o que evidencia as potencialidades do cemitério, considerado como um patrimônio histórico, artístico e cultural de Curitiba.

O cemitério foi fundado no dia 1º de dezembro de 1854 na capital do Paraná e reúne, conforme as informações no livro mencionado, “um vasto acervo de esculturas e manifestações artísticas, abriga marcas e indícios da história da sociedade, política e economia paranaenses. Mais que ornamentação de túmulos, suas obras traduzem a evolução histórica de Curitiba, assim como simbolizam a visão de nossa população acerca da morte, revelada por meio da arte tumular”.

A escritora reforça a importância de compreender os cemitérios como uma organização que obedece aos mesmos critérios de hierarquização do espaço nas cidades. Dessa maneira, Clarissa afirma que os cemitérios são feitos sobretudo para os vivos, pois espelham a cidade que os produziu. Referenciando Phillipe Ariès (1914-1984), a pesquisadora problematiza que as necrópoles reproduzem em sua topografia a sociedade global, reunindo a todos em um mesmo recinto.

No dia 11 de março, a visita foi exclusivamente dedicada ao dia internacional das mulheres. Essa foi a primeira visita com projeto temático e teve como escopo homenagear as personalidades femininas. Trata-se de uma conquista, uma forma de aumentar a visibilidade das mulheres sepultadas e ressignificar a história de Curitiba. Membro da Fundação Cultural de Curitiba, Clarissa informa que as visitas acontecerão duas vezes ao mês, divididas em visita normal e visita temática – ligada a uma data comemorativa do mês.

Esse trabalho de incentivar um olhar cultural e histórico sobre a necrópole é importante para compreender algumas questões que envolvem a sociedade. Diante de várias notícias de cemitérios desprezados pelo poder público, Clarissa inova ao levar as pessoas para o local. A compreensão de que o espaço produz subjetividades e constrói narrativas, pode ser um passo para um diálogo sensível e, ao mesmo tempo, fortalecido para lidar com os sofrimentos.

Por meio de leituras e acesso à rede social, tenho acompanhado as informações sobre as visitações. As reflexões que podem ser desdobradas a partir do contato com o espaço público são inúmeras, mesmo que eu não tenha vivenciado o roteiro cultural. Há ainda muito a ser dito sobre o tema, mas, no momento, apenas posso avisar que as visitas são no período matutino, das 9 às 12 horas e que, para participar, é necessário informar o nome completo e o número da carteira de identidade por e-mail visitaguiada@smma.curitiba.pr.gov.br.